Nas telas, o agnosticismo dos meios

por Alexandre Bassora


Qual dos tempos diários à frente da TV na última década revela mais sobre o sucesso desse meio de mais de 70 anos com o seu público: 5h24 ou 1h? Como comunicador, publicitário que sou, luto pela comunicação agnóstica de mídia. Como? Acredito em todas. Sem orientá-la a um único meio, entendo que os dados da pesquisa Kantar Ibope Media Workstation 2020/1ºsem. não respondem apenas a essa pergunta, mas indicam o quanto as agências e as marcas devem se atentar à intersecção entre crença e verdade. 

A pesquisa sobre o consumo de TV aberta foi realizada em 15 regiões metropolitanas e apontou que, em média, os brasileiros se informam e se entretêm pela telinha 5h24 por dia. 5 horas e meia! Impressionante. É possível que você não se surpreenda com isso, talvez. Há décadas, essa é a plataforma mais querida pelos brasileiros, que assistem duas vezes mais à TV do que a média mundial. Quando complemento com a informação de que esse tempo representa 1 hora a mais do que há 10 anos (quando não existiam muitos @ influenciadores e Instagram, por exemplo) aí é provável que você se veja obrigado a reconsiderar a força da televisão frente às novas mídias. Esses 60 minutos somados no tempo são extremamente relevantes.

O ambiente de consumo de notícias e entretenimento está fragmentado entre TVs, smartphones, tablets, computadores e outros, permitindo ao público transitar pelas plataformas sem lugar ou horário definidos. Ótimo! Viva a tecnologia. O problema está em acreditar que, mesmo em meio a rápidas e profundas mudanças navegando pela modernidade líquida apresentada pelo filósofo Zygmunt Bauman só os novos caminhos pareçam dignos de grandes apostas, como se os meios tradicionais já não fossem capazes de atrair grandes e novas audiências. Que bobagem.

Em mais de 30 anos de profissão, aprendi que tão ou mais importante que aprender algo novo é a disposição para romper com crenças que limitam nosso conhecimento. A teoria mais famosa do agnóstico Darwin aponta a adaptação como característica fundamental para a evolução das espécies, inclusive a minha, de publicitário.

Já que fiz essa provocação de quebrar o paradigma da TV frente às novas mídias, vale o destaque e exemplo que comprova o quão importante é estar atento às demandas da sociedade e ter disposição para se adaptar.

Sucesso entre anunciantes e espectadores, o Big Brother Brasil expõe tensões entre diferentes classes sociais e tribos. É em ambientes férteis assim que grande parte das maiores marcas anunciantes querem estar. O sucesso das edições recentes (programa entrou para o Guinness após alcançar 1,5 bilhão de votos em um único Paredão) é explicado, principalmente, pela presença de influenciadores digitais e de assuntos necessários, como o racismo e o feminismo. As pautas do reality criam narrativas que cruzam todos os meios e favorecem a complementação de conteúdo multiplataforma.

A presença de, ao menos, um aparelho em 71 milhões de imóveis residenciais (97% dos domicílios do país, segundo o IBGE) mostra a força colossal do meio que atinge mais gente do que a web, não à toa a programação das principais emissoras responde por significativo percentual das conversas nas redes sociais. Como, então, não acreditar na capacidade de adaptação dos meios tradicionais ao cenário em constante transformação?

O meu papel e o de todos com quem trabalho é entender que o melhor meio é onde estão as pessoas. É preciso compreender como elas vivem, como se relacionam, acompanhar seus movimentos e anseios. Utilize a TV se você quiser se comunicar com uma fatia gigantesca da população. Como canta Milton Nascimento: "todo artista tem de ir aonde o povo está". O publicitário também.

Alexandre Bassora é fundador e diretor-geral de criação da Audaz