Consumidores ou consumidos?

por Alexandre Prado



O que somos nós afinal? Somos consumidores por natureza. Sim, por natureza, ou você já viu alguém autossustentável perambulando por aí? Água, comida, TV´s de 50 polegadas, energia elétrica e tamagochis (animais de estimação virtuais que viraram febre mundo afora na década de 90). Consumimos o tempo todo. A vida em nosso próprio corpo é finita, um consumo constante de energia esgotável. Ser consumidor quer dizer bem mais que trocar moedas por um produto ou serviço. É em torno do consumo que toda a ordem mundial se move e se organiza, não só no capitalismo, mas em qualquer reino da natureza.

No mundo dos homens, no entanto, ter riquezas sempre foi sinônimo de ter capacidade de consumir o que quiser e quando quiser, riqueza ilimitada significa consumo ilimitado, que para muitos é uma meta de vida ou até sinônimo da própria felicidade. Consumir é inevitável. Consuma ou morra. Não há escolha. O que podemos é escolher entre dois tipos de consumo: o primário e o secundário. Sim, você já entendeu, o primeiro diz respeito ao necessário para a sobrevivência, como água, comida, abrigo, etc, enquanto o segundo é infinito e insaciável, alimentado por nossa imaginação, pela sedução, desejos, carências, inveja, gula e outras manifestações malucas do ego. E é aí que nos vem a grande questão levantada no título desse artigo: somos consumidores ou somos consumidos pelo consumo? A resposta parece simples: "Se obtemos apenas o básico para a sobrevivência, somos consumidores; qualquer coisa além disso nos faria consumistas ou escravos do consumo". Óbvio, não? Veremos.

Apesar do desprendimento material de muitos, é inegável que a humanidade nunca iria além de seu estado tribal sem o desenvolvimento industrial, que por sua vez está diretamente ligado ao consumo em escala. Transportes mais eficientes, arquitetura segura e inteligente, tecnologia, tudo isso vem de necessidades "criadas" pelo homem. E será que podem ser chamados de consumo do supérfluo? Onde está o erro em lutar para viver em sociedade que não bebe água no rio com as mãos nem planta tudo que come em casa ou mata animais para sobreviver? Nós, consumidores (também chamados de humanidade) chegamos a um momento decisivo: determinar a extinção da vida humana na Terra pelo consumo desenfreado de seus recursos (finitos) ou preservar o planeta, contendo o consumo? A resposta pode estar em mudar nossa crença sobre o consumo ser "primário (sobrevivência) e secundário (fruto dos desejos)". Talvez esteja na hora de entender que evoluir, ir além, mais que sobreviver (entender a essência da felicidade) é uma necessidade primária do homem. A evolução do ser traz necessidades que o homem da caverna não tinha. As pessoas passam, cada vez mais, a abrir mão conscientemente do próprio direito à vida se não tiverem acesso ao amor, à paz e à liberdade, por exemplo. E se abrem mão de viver por tais valores, não se tornou essa uma necessidade primária? Ou são apenas desejos e ilusões? O cérebro foi condicionado ao longo de milênios a garantir a sobrevivência, não a felicidade. E felicidade se tornou o objetivo de vida de cada ser humano no mundo moderno, logo, a mente vive um paradoxo: se quero mais que o necessário para sobreviver sou consumista, mas o necessário para sobreviver não me traz felicidade. Acredito ser esse o maior indicador de que nossas necessidades básicas mudaram, afinal, o supérfluo existe e em volume nunca visto nas prateleiras do capitalismo, mas isso não muda o fato de que consumir insumos para nossa inteligência, imaginação e emoções, no século XXI, também se tornou necessidade vital.
 

Alexandre Prado é publicitário, bacharel em comunicação social pelo Centro Universitário do Sul de Minas, UNIS (instituição nomeada pelo próprio enquanto cliente), consultor de Marketing; atuação como criativo em agências; atuação como criativo em emissora de TV; há 18 anos diretor da Realize Propaganda; palestrante; ministra treinamentos motivacionais e de comunicação empresarial e marketing; atuação como professor universitário de redação publicitária e marketing de Serviços; ilustrador; e gestor de Marketing no Plano de Saúde Serpram.