2020: virada de década promete retomada da economia brasileira e crescimento do PIB

Entrevista com Izaias de Carvalho Borges


 

Foto: Pixabay / Divulgação

A virada de década pode representar uma virada na economia brasileira, que já dá sinais de melhora em 2019 e deve manter o crescimento em 2020. O agronegócio manterá sua relevância e a construção civil tem a expectativa de voltar a construir novas histórias e ocupar seu espaço de representatividade no PIB brasileiro. Reformas da previdência e tributária, eleições municipais e projeções para 2020 são os assuntos comentados em entrevista pelo Professor Doutor de Economia na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Izaias de Carvalho Borges. Confira a entrevista!  

Quais os principais critérios as empresas devem levar em consideração para planejarem seus investimentos e esforços 2020?
Em condições normais, os empresários sempre devem ficar atentos à evolução da demanda do seu setor, ao comportamento dos concorrentes e às flutuações das variáveis macroeconômicos, tais como inflação, desemprego, crescimento do PIB, taxa de câmbio e taxa de juros básica.
Além destas, é importante acompanhar as reformas macro e microeconômicas e ficar atentos nos impactos que elas poderão ter sobre os negócios (sobre custos e receitas).

Quais os principais desafios e oportunidades para 2020?

O maior desafio ainda continua sendo o de recuperar totalmente a confiança dos empresários na retomada do crescimento econômico. Para esta retomada de confiança, será importante que o governo exerça a função que se espera de um governo: criar as condições para a estabilidade e para a confiança. Portanto, é fundamental que o governo pare de criar crises políticas desnecessárias, mas que podem perturbar a retomada da confiança e do crescimento. Exemplo: não ajuda em nada os conflitos do presidente Jair Bolsonaro com o seu próprio partido, com a imprensa, com os países vizinhos e com setores ligados ao meio ambiente e à educação.

Quais suas perspectivas para o crescimento econômico de 2020 no Brasil e também no interior do Estado de São Paulo?

As expectativas são de retomada do crescimento. As previsões apontam um crescimento para 2020 maior do que em 2019. Algumas previsões apontam um crescimento econômico entre 2,5 e 3,0% em 2020, caso não ocorra nenhuma tragédia política interna ou externa.

Quais os impactos que a Reforma Previdenciária trará ao mercado em 2020?
Os maiores impactos da reforma da previdência na economia serão de médio e longo prazo. No curto prazo, entretanto, ela poderá afetar positivamente a confiança dos empresários e investidores, inclusive sinalizando para o mercado um maior poder de negociação e execução de reformas do governo.

Sobre a Reforma Tributária, de que maneira os setores da Indústria, Comércio, Serviços e Emprego serão impactados?
A carga tributária no Brasil é elevada , distorcida e injusta (onera excessivamente os negócios e os pobres). Portanto, o que se espera da reforma tributária é que ela contribua para uma maior eficiência nos negócios (redução de custos) e para uma maior equidade tributária (uma distribuição mais justa do peso dos tributos entre os ricos e pobres). Se a reforma tributária ao mesmo tempo reduzir custos das empresas, sobretudo da pequenas e médias, e aumentar a renda disponível dos mais pobres, o resultado para as empresas será um aumento da demanda e dos lucros. Mas nem sempre a reforma possível coincide com a reforma desejada. Aprovar uma reforma tributária pressupõe negociar ganhos e perdas, tanto com setores empresariais quanto com diferentes níveis de governos, e nem sempre o resultado é aquele que desejamos. Dificilmente será feita uma reforma que agrade a todos. Mas de qualquer forma, o Brasil tem um sistema tributário tão disfuncional e que gera tantas ineficiências que qualquer melhora deverá ser comemorada.

Como as eleições municipais podem interferir na economia em 2020?

Eleições sempre influenciam nos resultados econômicos, porque elas afetam principalmente a confiança e a expectativa dos agentes econômicos. Como no Brasil existe reeleição, um grande risco, por exemplo, é o prefeito em exercício, candidato a reeleição, aumentar os gastos e descuidar das finanças para mais facilmente se reeleger. Da mesma forma, o governo federal poderá aumentar os repasses para ajudar seus aliados? Estas são questões que normalmente geram incertezas e perturbam o ambiente dos negócios.

De que forma a economia mundial impactará a economia no Brasil?
A economia mundial afeta a economia brasileira basicamente de duas formas: pela balança comercial (principalmente pelas exportações) e pela conta de capital (entrada e saída de capital externo).
O cenário externo não favorece muito o Brasil, pelo menos no curto prazo, que é um pais que tem a sua inserção no mercado mundial caracterizada pela exportação de commodities (agrícolas e minerais) e pela dependência do capital externo. O litígio comercial entre Estados Unidos e China, por exemplo, poderá ter reflexos sobre as exportações brasileiras. Além disso, a OCDE prevê que em 2019 e 2020, a economia mundial crescerá o menor ritmo desde a crise de 2008. Este crescimento baixo da economia mundial, principalmente nos países de alta renda, poderá contribuir para um cenário de mais queda no preço internacional das commodities agrícolas e minerais. Portanto, torna-se mais importante ainda que os fatores internos, como a estabilidade política e as reformas macroeconômicas, compensem a ausência de "ajuda" externa.

Quais as perspectivas para a indústria, agronegócio, construção civil e serviços em 2020? Algum setor terá destaque especial?
Para 2020, as projeções são favoráveis ao desempenho do setor agropecuário (apesar dos riscos apontados acima). No setor industrial, a expectativa é de desempenho favorável dos bens de consumo não duráveis e dos de consumo duráveis, principalmente dos eletrodomésticos. No caso da construção civil, também há uma expectativa de recuperação impulsionada pela redução da taxa de juros para o financiamento de imóveis.