2018: o ano da retomada e de decisões políticas

Entrevista com Izaias de Carvalho Borges


Divulgação/ ShutterstockDepois de um longo período de noticiários com números desanimadores, demissões em massa, desaceleração da economia brasileira e falta de confiança para investir, o Brasil volta a apresentar uma luz que parecia não existir no final do túnel e já há projeções positivas para 2018. O Professor Doutor de Economia na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Izaias de Carvalho Borges, entrevistado pelo Break, ressalta que o pior já passou, mas é preciso cautela em 2018, ano que promete uma virada positiva para o crescimento das atividades industriais e de decisões ao mesmo tempo, em decorrência das eleições. Confira a entrevista!

PUC-Campinas
O economista e professor da PUC-Campinas, Izaias de Carvalho Borges, reflete sobre projeções econômicas para 2018 no Brasil

O que os empresários podem esperar de 2018? Como se planejar para o próximo ano? 2018 será um ano de retomada?
Os sinais emitidos pela economia em 2017, principalmente a partir do segundo semestre, são sinais de recuperação, ainda que tímida.
O ano de 2017 está terminando com melhoras em importantes variáveis macroeconômicas: inflação baixa e estável, taxa de juros em queda, expansão do crédito, crescimento da produção, queda no desemprego e contas externas equilibradas. Tudo isso, em conjunto, sinaliza para um 2018 melhor do que 2017, embora devamos ter cautela com previsões muitos otimistas, pois 2018 é um ano eleitoral e eleição no Brasil pode se tornar um fator perturbador (por criar incertezas quanto as políticas econômicas que serão praticadas pelo próximo presidente) para a recuperação econômica.
Confirmando a recuperação da economia em 2018, os empresários devem esperar retomada das vendas, impulsionadas tanto pela redução do desemprego quanto pela retomada do crédito.

No próximo ano, quais efeitos da reforma trabalhista terão reflexo no mercado?
Os efeitos da reforma trabalhista no mercado ainda é algo controverso. É difícil prever estes efeitos, principalmente em um cenário de recuperação (a recuperação não ocorre no mesmo ritmo em todos os setores e regiões) e em um contexto em que muitos setores estão passando por reestruturação produtiva importante.

O ápice da crise econômica no Brasil já passou?
Provavelmente sim. O comportamento das variáveis macroeconômicas importantes a partir do segundo trimestre de 2017 sugerem que o pior já passou. Como exemplo, podemos citar a queda na inflação, que deu espaço ao Banco Central para reduzir a taxa de juros básica da economia, e recuperação nas atividades econômicas, principalmente na produção industrial, que tem um grande efeito multiplicador em outras atividades econômicas.

Quais suas perspectivas para o crescimento econômico de 2018?
Em função da redução na taxa de juros, da retomada do crédito, do consumo e da recuperação do mercado de trabalho, as perspectivas para as atividades econômicas são de crescimento em 2018. As previsões para o crescimento do PIB em 2018 variam de 1,5 a 3%. 

Como as eleições podem interferir na economia em 2018?
A recuperação das atividades econômicas depende de decisões de investimento dos empresários e de decisões de consumo dos consumidores. Ambos precisam confiar na recuperação para investirem e consumirem mais. Considerando que tanto as decisões de investimentos quanto a de consumo envolvem receitas e pagamentos no futuro, é fundamental que existam condições mínimas de previsões das principais variáveis macroeconômicas, sobretudo para os preços básicos da economia, como a taxa de juros básica, o índice geral de preços e a taxa de câmbio.
O comportamento destas variáveis no futuro depende das políticas macroeconômicas. O problema é que as eleições podem criar incertezas quanto às políticas macroeconômicas futuras, principalmente se considerarmos o cenário atual, que é o da polarização entre duas candidaturas com bastante desconfiança por parte do mercado.

O que a crise pode trazer de aprendizado para o país?
Temos uma crise econômica e uma política e ambas estão relacionadas entre si. Não é possível explicar uma sem a outra. As duas crises refletem a relação problemática entre o Estado e mercado. Entre o público e o privado. A forma de governar desde a redemocratização tem sido o presidencialismo de coalização, uma vez que nenhum presidente, considerando a quantidade de partidos, consegue maioria no congresso sem alianças com outros partidos. O problema é que estas alianças não são necessariamente com base em programa comum de governo, mas com base no famoso clientelismo, ou seja, a base aliada é “comprada” com cargos, emendas parlamentares, empregos para correligionários em estatais e etc. O que estamos vendo com a Operação Lava-Jato é que o dinheiro para comprar a base aliada vem, muitas vezes, de contratos superfaturados, o que criam um estado caro e ineficiente ao mesmo tempo. Claro que a corrupção não é a única causa desta ineficiência, mas é um elemento relevante.
O que a crise está trazendo de aprendizado é que precisamos de um outro estado, mais democrático, mais forte e eficiente, inclusive com maiores condições de intervir em momentos de crises, considerando que as crises no sistema capitalista são recorrentes. A velocidade com que as economias saem das crises dependem da capacidade de intervenção do Estado, que por sua vez, depende da eficiência e da credibilidade deste Estado.

O setor de Agronegócios tem impulsionado a economia brasileira. Há algum setor que vai se destacar em 2018?
O agronegócio vem sendo um setor importante para a economia brasileira, pelo menos desde início dos anos 90. Tem uma participação no PIB próximo dos 30%. É importante para a estabilidade de preços (o desenvolvimento tecnológico no campo foi relevante para a redução no preço real dos alimentos no Brasil), e principalmente, tem sido importantíssimo para o equilíbrio das contas externas. Graças às exportações do agronegócio que a balança comercial brasileira vem apresentando superávits desde início dos anos 2000.  
A recuperação do crédito e melhora do mercado de trabalho, que resultam em uma recuperação da capacidade de consumo, poderão ter impactos positivos sobre a indústria de transformação e sobre os serviços. Assim, tudo mais constante, podemos esperar uma recuperação das atividades industriais.