Das braçadas nas piscinas para abraçar o empreendedorismo

O ex-nadador Gustavo Borges mostra que a vida de empresário é um esporte que exige o mesmo esforço que a natação


A última vez que o ribeirão-pretano Gustavo Borges entrou em uma piscina para competir foi em 2004, nos Jogos Olímpicos de Atenas, aos 31 anos. Dez anos depois de encerrar a carreira, o atleta continua a ser o maior medalhista brasileiro em pan-americanos. São 19 pódios nas edições de Havana, em 1991; Mar Del Plata, em 1995; Winnipeg, em 1999; e Santo Domingo, em 2003. Conquistar títulos que demoram a ser superados, aceitar desafios, gostar do que faz e treinar - para só então chegar aos resultados de forma ética - são características que Borges exibiu  nas piscinas das competições e agora tenta transmitir  nas piscinas das academias que fundou.
Ao todo, a Metodologia Gustavo Borges, sistema de ensino de natação comercializado em academias e escolas do País, já ensinou mais de 320 mil crianças e adultos a nadar, formou mais de 5 mil professores e é adotado por mais de 330 estabelecimentos em 22 estados brasileiros. Além da unidade Morumbi, em São Paulo, são mais três estabelecimentos em Curitiba e outro em Londrina (PR). 
Borges enveredou também pelos caminhos do empreendedorismo e, através de palestras motivacionais, transmite sua expertise e tenta integrar e motivar equipes a convite de empresas espalhadas em todo o país. Nelas, ele conta a sua trajetória, a de um menino de 9 anos que começou a treinar na cidade de Ituverava, próxima de Ribeirão Preto. Mais tarde, foi treinar e estudar nos EUA, onde enfrentou inúmeros obstáculos, porém manteve-se focado nos resultados, com os mesmos princípios que os empreendedores devem ter em sua filosofia: paciência e disciplina. Confira a entrevista que ele concedeu ao Break:
1. Como funciona a Metodologia Gustavo Borges de Natação? 
A Metodologia Gustavo Borges proporciona a completa sistematização pedagógica e operacional do ensino da natação. A individualidade dos alunos é respeitada em um programa de aulas específicas para cada nível e num sistema de avaliação baseado no desenvolvimento das habilidades aquáticas de cada um. Os alunos são motivados por meio do aprendizado lúdico e da mudança da cor da touca nas passagens de nível. Para os adultos, o calendário -  estruturado de acordo com os princípios da fisiologia - possibilita ao professor a elaboração de um programa de acordo com seu objetivo, seja o bem-estar ou a busca por melhoria. 
 2.       Quais princípios da natação você aplica em suas empresas?
Disciplina, dedicação, organização, planejamento, trabalho de excelência e resultado.
 3.    O que o esporte e o empreendedorismo têm em comum?
Ambos têm muito em comum, um pouco dos aspectos de disciplina, dedicação, organização, trabalho de excelência e resultado. O atleta aceita desafios, busca resultados, planeja, treina e chega aos objetivos. E o empreendedor é assim também. Além disso, ambos têm foco na construção dos resultados de forma ética.
4.        Nesses dez anos que você atua como empreendedor, quais os erros e acertos que cometeu?
Cometi erros no planejamento.Por exemplo:  ao construir uma nova unidade, o orçamento estourou em 40%. Talvez isso seja fruto do otimismo normal do empreendedor. 
Por outro lado, acertei na disciplina, com vontade de fazer sempre o certo,  ter motivação para fazer funcionar e buscar constantemente o melhor resultado.
5.       O que você costuma destacar em suas palestras motivacionais? Como superar o pessimismo atual?
Procuro destacar sonho, objetivo, trabalho e a busca da  excelência, a conquista e o resultado. Para superar o pessimismo, é preciso muito trabalho e evitar ter contato com informações pessimistas que estão em todo canto. 
 6.  Como as empresas podem construir times vencedores?
Elas precisam buscar um propósito junto è equipe e nortear toda a cultura da empresa, o relacionamento com seu cliente e equipe neste propósito. 
7.       Qual foi a principal medalha que você conquistou e o que essa conquista te ensina até hoje?
A principal medalha foi nas Olimpíadas de 1992, em Barcelona, onde conquistei prata nos 100 metros do nado livre, com o tempo de 49s43. Essa medalha me ensinou a ter paciência. (Leia depoimento de Gustavo Borges no site do Break)
8.       Em suas palestras e conversas, o que você percebe que falta nos brasileiros para atingirem seus objetivos?
Percebo que às vezes falta aos brasileiros ser mais protagonista de suas ações e menos vítima. 
 9.   O que te motiva no dia a dia?
O que me motiva são as realizações, o pertencimento a  um grupo e a busca de  tudo que eleve a auto-estima.
 10.   Como podemos nos motivar sempre?
Podemos nos motivar com ações realizadoras profissionalmente, inserir-nos em  um contexto que nos anime e ser apaixonado por aquilo que fazemos.
11.   Você estudou nos EUA. Você aplica o que aprendeu no curso em  seu negócio? 
Minha formação é em administração. O aprendizado na universidade me deu uma base para ser um bom administrador.
 12.   Como foi transformar o nome Gustavo Borges em uma marca?
Foi uma experiência  interessante e diferente daquela  das piscinas. Muito trabalho, parceiros, sócios e pessoas envolvidas nesses projetos. A natação é solitária.
“O atleta aceita desafios, busca resultados, planeja, treina e chega aos objetivos. E o empreendedor é assim também”
Gustavo Borges, ex-nadador e empresário
Divulgação
Gustavo Borges, ex-nadador e empresário

Leia mais sobre a experiência do ex-nadador Gustavo Borges nas Olimpíadas de 92, e aprenda sobre estratégia.
Depoimento de Gustavo Borges - A sofrida prata de 1992
Em 1992, em Barcelona, minha primeira aparição olímpica, nas eliminatórias dos 200 metros livres, foi desastrosa: sétimo lugar na bateria e 22º geral. Mas eu sabia que meu nível de confiança nem se comparava ao dos 100 metros livres, então pensei: "Essa prova foi ruim, mas não vai interferir na próxima. Vamos embora".
Dois dias depois, de manhã, entrei determinado a fazer um “tempaço” já nas eliminatórias dos 100 metros livres. Consegui o segundo melhor tempo e comecei a projetar a final, que aconteceria à tarde. "Bom, agora nado melhor à tarde e garanto uma medalha".
Eu cheguei à final no meio de duas estratégias distintas, uma do Biondi [Matt, norte-americano] e a outra do Popov [Alexander, russo]. Como o Biondi passou forte nas eliminatórias, vi que ele estava nervoso e se sentindo pressionado por aquele negócio de cansar ou 'morrer' na final. Já o Popov tinha se poupado na eliminatória, para forçar ao máximo na briga pela medalha. Se eu caísse na de um ou de outro, poderia me atrapalhar na prova. Aí decidi manter o foco na minha estratégia.
Em algum momento no começo da carreira, eu ouvi o seguinte conselho de um treinador: "Se você respirar nas últimas braçadas, vai perder centésimos de segundo". Por isso, em todo final de prova eu bloqueava a respiração nas últimas oito ou dez braçadas.
Quando terminou a final dos 100 metros livres, percebi que tinha chegado na frente do Biondi e um pouco atrás do Popov. Aí eu pensei: "Bom, ganhei de um cara e perdi do outro, estou com a medalha". Quando olho o resultado no painel, meu nome está sem tempo. Normalmente, depois de um minutinho ou dois, sai o tempo oficial. Essa demora é uma coisa meio inadmissível.
No caminho entre a piscina e o túnel, encontrei meu treinador e ele disse que eu tinha ficado em quarto, empatado com o Biondi. Perfeito, né? O cara não mexe no pódio, me dá o quarto lugar e todo mundo fica feliz. O quarto também era bom, mas eu sabia que tinha ganhado do Biondi. 
Então sentei num canto do centro aquático, muito chateado. Não me recordo exatamente se estava à espera do resultado oficial ou de uma ajuda divina. Depois de longos 40 minutos, surgiu o Coaracy Nunes [presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos] dizendo que, na verdade, eu tinha sido segundo. Fiquei em pé e saí correndo, ainda meio sem saber o que estava acontecendo.
No voo de volta para o Brasil, viajei ao lado do Paulão, do vôlei. Imagine dois caras com dois metros de altura num avião de classe econômica. E ainda por cima precisei sentar à janela, com as pernas recolhidas, porque ele disse: "O corredor é meu, medalha de ouro vale mais".
As pessoas ainda hoje me param na rua, no restaurante, no clube para perguntar da Olimpíada de 92. Ninguém fala das medalhas de 96 ou 2000, do recorde mundial. O pessoal tem na memória a prata em Barcelona, porque tem um enredo, uma história, um drama, e isso eu acho fantástico.