O que as startups podem nos ensinar no atual momento?

por Luciana Souza



Antes de explicar o que as empresas têm a aprender, gostaria de começar pelo começo... você sabe o que é uma startup? Existem várias definições, mas de uma forma simples, existem 3 características básicas que podem definir uma startup e seu modelo de negócio, que deve ser: 1) Escalonável, que pode ser estendido para um número muito grande de pessoas. 2) Replicável, que os mesmos usuários usem repetidas vezes. 3) Disruptivo, que gera algum impacto social, muda a dinâmica do mercado, seja de como os clientes consomem, ou nas relações empresa e cliente ou entre os concorrentes. Ao contrário do que muitos pensam, não necessariamente uma startup é uma empresa pequena (IFood é enorme), assim como, não é toda empresa pequena que é uma startup (modelos tradicionais). E startups não se referem somente a empresas de tecnologia. 

O termo Startup surgiu na década de 90, quando houve uma explosão dessas empresas no Vale do Silício, na Califórnia, região que desde 1960 é um centro de tecnologia e inovação. A definição startup passou a ser utilizada para designar empresas recém-criadas, rentáveis e com modelos de negócios inovadores em qualquer área ou ramo de atividade. No Brasil, as startups começaram a surgir em 2011, quando foram emergindo jovens empreendedores com ideias de negócios inovadores. Atualmente, existem mais de 13.000 startups no Brasil, e esse número vem crescendo fortemente a cada ano. Sendo 11 delas unicórnios, ou seja, startups que valem mais de 1 bilhão de dólares. 

O momento inédito que estamos vivendo com o novo coronavírus, com fortes reflexos tanto na economia quanto na saúde, vem acelerando uma série de processos no trabalho e na vida das pessoas, que provavelmente demorariam mais tempo para se concretizarem se não fosse a atual crise. Por exemplo, está havendo uma aceleração na transformação digital, no delivery, nos serviços por aplicativo, no home office, na EAD (Ensino à Distância), e tantas outras alternativas que as empresas estão tendo que buscar para poder atender seus clientes e driblar a crise na medida do possível e o máximo que conseguirem. 

Outra tendência muito nítida é que as empresas estão reconsiderando suas estruturas físicas e dos seus colaboradores. Estão percebendo que a estrutura de escritório não necessariamente precisa ser a qual elas vinham utilizando, assim como seus colaboradores podem trabalhar de home office seja parcialmente ou totalmente. Ou seja, essa tendência envolve flexibilidade na estrutura e redução de custo, consequentemente está havendo um aumento no interesse por espaços de Coworkings, que são espaços compartilhados de trabalho. As startups, muitas delas, já nascem em Coworkings. 

Assim como, as startups já utilizam várias metodologias ágeis e inovadoras em seus processos. Os Métodos Ágeis vão contra documentação e burocracia e estão focados no que realmente irá agregar valor ao processo produtivo e foco no cliente. Alguns exemplos de metodologias ágeis e de inovação utilizados pelas empresas e suas aplicações: Scrum (Gestão de Projetos), Kanban (Método de Gestão), XP (Extreme Programming), FDD (Desenvolvimento de Funcionalidades), Lean Startup (Desenvolvimento de Produtos) e Design Thinking (foco no usuário). 

Outra característica fundamental nas startups é que existe uma cultura interna propícia à inovação que estimula um mindset inovador que reflete nas atitudes e nas decisões de seus líderes e colaboradores. Numa startup, testa-se muito e consequentemente erra-se muito, pois sabem que quanto mais cedo errar, mais rápido acharão o caminho certo. Consequentemente, os profissionais numa startup não têm medo de errar, pois sabem que falha não é fracasso. Essa cultura por si só já permite um ambiente muito mais criativo e produtivo. E todos esses conceitos vêm muito ao encontro com a cultura que existe no Vale do Silício. 

O que estamos vivendo hoje está forçando os empreendedores tradicionais a buscarem soluções inovadoras e mudar seus mindsets, como os empreendedores de startups sempre fizeram. Não há tempo para muito planejamento prévio ou para testar muito, o que tem que ser feito é tentar as alternativas que temos no momento para atender os clientes da forma que for possível. Por outro lado, os consumidores e empresas estão mudando a forma de se relacionarem com os produtos e serviços, e essas mudanças vieram para ficar. 

Durante a quarentena, assim como após esse período, quando iremos retornar para um "normal" diferente do que conhecemos, as empresas têm que se reinventar a cada dia, buscar soluções, criar novas ideias e conceitos, mudar naquilo que for necessário para se adequarem à nova realidade. Utilizar metodologias ágeis e de inovação é uma necessidade e não mais diferencial das empresas. 

Não existe outra escolha, a não ser se adaptar, inovar, testar e tentar o máximo que pudermos. E para finalizar, gostaria de lembrar de uma fala do Peter Drucker, pai da administração moderna: "Não podemos prever o futuro, mas podemos criá-lo. A inovação sempre significa um risco e não inovar é muito mais arriscado do que construir o futuro". Estamos tendo uma oportunidade única de criar o futuro! Realmente o momento é de muitas incertezas e ainda não temos clarezas de tudo que ainda irá mudar, porém em relação a vários aspectos já podemos ter ações para nos adaptarmos e nos prepararmos para o novo mundo que está se formando. Ou seja, todos terão que se reinventar e gerar ideias disruptivas, e isso não será mais privilégio só das startups. 

Luciana Souza é engenheira química pela Unicamp, com MBA em e-Business pela FGV e pós-graduação em Educação Comunitária. Possui 15 anos de experiência na área comercial em empresas multinacionais. Empreendedora desde 2013, Empreteca, mentora da Incamp (Incubadora da Unicamp) e do Sebrae (Startup SP). Sócia-fundadora do Hub On CoSpaces, um centro de empreendedorismo e coworking em Campinas / SP.