Responder ou reagir? O que temos feito afinal?

por Alexandre Prado


 

Nosso cérebro é visual. Quando você imagina ou pensa sobre algo, projeções de "cenas e imagens" são feitas por sua mente. Sempre.

E curiosamente, o cérebro não distingue tais projeções mentais da realidade. Para ele tudo é realidade. Somos seres visuais.

E é incrível refletir sobre o fato de que você pensa, uma imagem é criada, passa a ser real em sua mente e você passa a sentir a partir dela. É exatamente assim que o desejo de consumo acontece e pode ser tecnicamente orientado pela propaganda.

Boa parte da atividade cerebral acontece nesse processo de identificar e analisar as imagens que vemos ou projetamos a partir do que pensamos. Esses processos são os que movimentam as maiores áreas no cérebro.

Por isso, pesquisas mostram que, na internet, por exemplo, imagens tem mais engajamento que textos. Nunca na história nós fomos tão bombardeados com imagens. Principalmente depois da era digital, mas não se trata apenas da internet. Painéis digitais, TVs nos mais diversos ambientes, outdoors, indoors, quase tudo virou um espaço de mídia e isso traz consequências para vida de todos, em todas as áreas. Porém, como estamos aqui para tratar de mercado, manteremos o foco em analisar essa situação por esse prisma.

Quais as consequências da sociedade ser estimulada com tanta informação visual de comunicação? Como isso impacta o mercado, consumidores e profissionais?

Nunca na história, os terapeutas, psicólogos ou psicanalistas relataram tantas pessoas com déficit de atenção, dificuldade de foco ou condições similares.

Uma pesquisa realizada no Canadá, pela Microsoft, mostra que, em 15 anos, a capacidade de foco das pessoas (quando são estimuladas com distrações) caiu em 1 terço: de 12 para 8 segundos. Outra pesquisa, feita em Londres pelo Kings College, revela que os alertas de e-mail (durante um teste) afetam mais os testes de QI que os efeitos da maconha.

Na China já existe um campo de treinamento para jovens viciados em internet. Algo parecido com uma área de treinamento militar. Os responsáveis pela instituição dizem que os efeitos do vício em internet, no cérebro dos viciados, são compatíveis aos efeitos da heroína. Clínicas mundo afora que só tratavam dependentes do álcool e outras drogas, agora já recebem viciados em internet para recuperação.

Trata-se de uma verdadeira epidemia de falta de foco, atenção e consequentemente raciocínio, causada pelo excesso de informação visual dos tempos modernos; algo que, por enquanto, só tende a aumentar.

Ao entendermos isso não fica difícil compreender a falta de vontade de ler, estudar, pensar, pesquisar, analisar, refletir, ainda mais quando se proliferam as ferramentas de busca que aparentemente têm assumido o papel de fazer isso por nós.

O resultado? Uma sociedade inteira feita de indivíduos que mais reagem do que respondem.

Não é à toa que uma das palavras mais valorizadas nos dias atuais é "disrupção", a capacidade de fazer diferente, de mudar o rumo das coisas. Ao contrário, a maioria dos profissionais tem funcionado no automático, com a mesma resposta pronta para a maior parte dos problemas, fiéis à lei do mínimo esforço. Justamente por falta de foco e raciocínio; os pais da falta de envolvimento.

E você reage ou responde? Se frente a um problema usa muito frases como "Eu já sei como é", ou "Já sei o que dizer", ou "Já sei..." pode ser um processo automático do cérebro, uma reação, não uma resposta. Você pode estar sofrendo de "excesso de certeza". Bons profissionais nunca consideram já saber tudo, sempre pesquisam algo além, sempre se informam mais, analisam como e o que falar, entendem o que é importante dizer ou não, assumem o que não sabem e por aí vai. Nunca são apenas reativos, isso é responder a um problema, independentemente de seu nível de eficácia.

A sociedade, contudo, cada vez mais dá às pessoas a ilusão de terem todas as informações necessárias na palma das mão, enquanto de fato, o que ocorre é um bombardeio de imagens, projetando sucessivas ideias irrelevantes no cérebro em um volume jamais visto, mas isso nunca foi sinônimo de conhecimento ou muito menos sabedoria e, ainda está tirando o foco e a atenção das pessoas para o que realmente importa: o descobrir, reconstruir, inovar, o poder de mudar as coisas para melhor. Esse é o sentido de toda profissão. Essa é a corrida de todo o mercado: saber mais para ser mais útil, mais relevante. Eis a única coisa que mantém competitivo um profissional, marca ou empresa. 

Alexandre Prado é publicitário, bacharel em comunicação social pelo Centro Universitário do Sul de Minas, UNIS (instituição nomeada pelo próprio enquanto cliente), consultor de Marketing; atuação como criativo em agências; atuação como criativo em emissora de TV; há 18 anos diretor da Realize Propaganda; palestrante; ministra treinamentos motivacionais e de comunicação empresarial e marketing; atuação como professor universitário de redação publicitária e marketing de Serviços; ilustrador; e gestor de Marketing no Plano de Saúde Serpram.